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Chego à frente da cafeteria “Acima da média”, mudaram o letreiro, ficou bom, mudaram a logomarca também, tudo novinho. O cheiro continua o mesmo, foi aqui que aprendi a gostar de café, aliás, foi aqui que aprendi muita coisa.
Estaciono o carro ao lado de um latão de lixo verde musgo e entro no estabelecimento. Várias mesinhas encostadas nas vidraças que dão para a rua. Duas garçonetes atendem os clientes, uniformizadas de acordo com a decoração interna, bege e marrom. Encosto no balcão.
- Um cafezinho por favor!
- É, simples!
- Não, sem açúcar mesmo.
Se o aroma não mudou, o sabor menos ainda. Ainda deve ser a tia Madalena lá dentro. Depois entro lá e dou um abraço nela.
Terminado o café, entro na porta lateral que diz “Somente para funcionários”, é um corredor, sujo como sempre, à minha direita, a porta de metal da cozinha com dois círculos de vidro no meio. Sigo em frente até uma porta no fim do corredor, abro, é uma sala onde guardam todo material de limpeza. A luz fraca me mostra esfregões, vassouras, rodos e todo tipo de detergente e desinfetante.
Abro a caixa de luz, ligo e desligo o disjuntor correto, ouço algo destravando. Afasto o tapete vinho e abro o alçapão. Desço a escada de madeira e chego na sala de segurança do Medusa. Dois homens vigiam quatro monitores com imagens da lanchonete e arredores enquanto bebem coca-cola e comem baconzitos.
- A Rita está lá dentro? – Pergunto a um deles, mesmo já sabendo a resposta.
- Está sim Senhor Johnatam. Está te aguardando.
- Obrigado.
Abro a porta.
- Oi Rita! Tudo bom?
- Tudo ótimo. Me da um abraço aqui.
- O Medusa está...
- Ta sim. Já sabe que você está aqui. Entra lá.
Abro a porta de madeira entalhada e entro na sala do Medusa. O cheiro característico da sala ainda é o mesmo. Maconha. Ouço o raggae saindo do home theater e uma banda tocando na tela de plasma de 56’’ na parede.
Atrás da mesa só vejo as costas da luxuosa cadeira preta e prata e a fumaça saindo de trás dela rumo ao teto.
- Você não enjoa dessa música não? – Pergunto tentando demonstrar bom humor.
- Você enjoa de mulher? - A resposta vem na característica voz rasgada que eu já conheço.
- É diferente. Reggae é sempre igual. Só muda o vocalista.
- Mulher também, só muda a cara, e nem por isso eu enjôo. Você enjoa?
- Ta bom. Me convenceu. Reggae é bom. - Concordo com ele pra não insistir no assunto.
A cadeira gira e posso ver o traficante a minha frente. Os mesmos dreads, as mesmas cicatrizes, a mesma pele “chocolate meio amargo”, como ele mesmo chama e um cachimbo novo, preto, cheio de desenhos brancos.
- A Rita me falou que você queria conversar comigo sobre uma “boate”. Vai abrir uma? Quer dinheiro?
Surpreendido, não contenho minha risada.
- O que? Quer falir alguma? Matar o dono? - Insiste ele se inclinando para frente e já esboçando certa curiosidade e exaltação.
- Não. Na verdade não é boate. Eu disse Gigabytes, mas ela não deve ter entendido direito pelo telefone.
- Compreendo.
- Eu vim foi por causa dessa merdinha aqui.
Medusa estende a mão e lhe entrego o pequeno chip. Ele abre a gaveta da direita, pega uma lupa e começa a examinar.
- Os contatos foram arrancados. – Diz ele como que descobrindo a América.
- Eu percebi quando peguei.
- Então, qual o problema?
- Você não sabe nada a respeito? Não sabe o que tem dentro?
- Porra! Como eu vou saber? – Diz ele sem abrir muito os lábios, por causa do cachimbo.
- A mulher que tentou me matar queria te entregar isso.
Medusa se levanta lentamente da cadeira e contorna a mesa, vindo em minha direção.
- Johnatam. Se eu mentir, você vai saber que estou mentindo, não vai?
- É provável.
- Bom saber que VOCÊ sabe disso.
- Mas então? O que tem aí dentro?
“Vejo” a Rita entrando, trazendo um celular nas mãos e entregando ao Medusa.
- Depois ele atende! – Grito, antes que ela possa encostar a mão na maçaneta.
- Digamos que boa parte do seu passado está aí dentro.
- Você pesquisou o meu passado?
- Eu não. Eu ainda não sei quem é você. Mas tenho quem pesquise pra mim.
- E você vai me mostrar. Correto?
- Cadê o vidente agora? Cadê o “Pai Diná de pistola”?- Brinca ele, caindo na gargalhada em seguida.
- Porra Medusa! Eu to falando sério! Caralho!
- Fala baixo comigo moleque. Se não eu fumo seu passado nesse cachimbo agora! Quer ver?
Prefiro esconder minha exaltação e me sento num banco. Ele contorna a mesa novamente e senta em sua cadeira imponente.
- O que você quer?
- Que você faça uns trabalhos pra mim. Só coisa boba. Você tira de letra!
- Eu já disse que não trabalharia mais pra você. Você sabe bem o porquê!
***
14 de Janeiro de 1999
Estou segurando uma pistola, e apontando pra um pedaço de carne pendurado num gancho. É um galpão, com alguns caminhões e diversos containeres. O suor escorre frio da minha testa. “Vejo”o medusa vindo até mim.
- Lembre-se do que te ensinei. Alça e mira.
Ele se levanta, mas antes que possa começar a falar, já o interrompo.
- Já sei! Já sei! Alça e massa.
Demoro cerca de cinco minutos pra atirar. Pois toda vez que prevejo que vou errar, deixo de atirar e volto a mirar novamente. Mas quando vejo a peça de carne espalhando pedaços pra todo lado eu aperto o gatilho com vontade.
- Muito bom garoto!
***
