segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Capítulo 1

...
Eu estava de costas pra ela, entrando no galpão, 4:37 da madrugada. Sabia que o vestido dela era vermelho, sabia até que a calcinha era vermelha também. Peguei meu isqueiro no bolso, acendi o último cigarro do maço, já sabia disso antes de estacionar o carro, mas não peguei o outro maço no porta-luvas. Não peguei, pois também já sabia que seria esse maço vazio que iria me ajudar.
O chão brilhava molhado pelas goteiras no teto do galpão, formando um estranho e áspero espelho que me refletia uma versão abstrata e peculiar da realidade. Me entreti por alguns segundos recordando as imagens que vi antes de sair do carro. Eram parecidas com as imagens que eu via agora, algumas nuances avermelhadas em meio ao caos branco, cinza e preto. Pronto, era essa minha deixa. É agora que ela vai falar.
- Me procurando babaca? – Disse ela engatilhando a pistola.
Não olhei pra trás, não era agora que ela atirava. Não ia demorar, mas ainda não era agora. Faltava a música.
Ouvi um ruído no fundo do galpão. Algo metálico se chocando contra o chão, ecoando ao redor. Assustou os pássaros que revoaram mudando de lugar bem pra cima das nossas cabeças. Eu sabia que eles iam mudar de lugar novamente, sabia até que um ia cair no chão, bem do meu lado.
Katarina se surpreendeu com o ruído.
- Não, eu não trouxe ninguém comigo. – Eu disse a ela enquanto me virava e passava a enxergar seus olhos verdes cerca 70 cm atrás da pistola.
As pessoas sempre me demonstram espanto quando percebem que prevejo as coisas. As mulheres principalmente. Arregalam os olhos e abrem um pouco mais a boca vagarosamente. Tive que rir. Pra essa não precisava ser vidente pra saber.

- Que porra de barulho foi esse então? – Ela se recuperou rápido. OU... se irritou com meu sorriso. Prontamente o escondi fazendo um bico que infelizmente se tornou debochado. Nunca deboche de uma mulher com uma pistola apontada pra sua cabeça.
- Catraca. Eu não quero ter que te machucar. Só quero o pacote e você sabe disso.
Catraca era o apelido de infância da Katarina, quando os meninos queriam “zoá-la” durante as brincadeiras. Ela nunca gostou muito disso. Nunca fui amigo de infância dela. Só sei que era assim que acontecia. Como? Sei lá. Apenas sei.
- Não acredito que você seja um vidente. Não tenho medo de você.
- Moça. Se eu disser que você vai se mijar de medo, você vai se mijar de medo disso ser verdade. – Eu disse isso enquanto ouvia um carro passando na rua atrás do galpão. Junto do som do motor, havia... a música. Nunca faça uma mulher se mijar de medo, na sua frente com uma pistola apontada para sua cabeça, num galpão às 4:40 da madrugada.
Segurei as mãos dela e levantei, apontando a arma para cima. Ela atirou. O som ecoou alto por todos os lados. Os pombos revoaram. O cheiro de amônia chegou a minhas narinas. Apertei forte a mão dela e fiz a pistola cair, chutando-a para longe em seguida.
- Cadê o pacote? – Eu disse isso com aquela calma nojenta que só quem acabou de subjugar alguém pode transpassar.
- O Cláudio não me entregou. Disse pra vir aqui matar você.
Nunca me faça ver uma mulher linda, usando um vestido vermelho, desabafar aos prantos enquanto se ajoelha no próprio mijo ao lado de um pombo que acabou de matar com um tiro de pistola às 4:41 da madrugada.
- Para com isso. Levanta. – Disse enquanto a ajudava a se levantar.
- Volta pro seu carro e mete o pé daqui.
Enquanto ela ia andando, Claudio apareceu na porta do galpão. Deu três tiros nela e veio andando em minha direção. Meu cigarro estava acabando.
- Essa piranha é uma mentirosa. O pacote está com ela sim. Pode procurar. – Ele falava e vinha andando na minha direção. O cano da arma ainda fumegava.
- Ela queria te matar e depois entregar o pacote pro Medusa.
- O que o Medusa ia querer com isso?- Disse dando a última tragada no meu último cigarro e jogando a guimba ainda acesa no chão molhado logo em seguida.
- Não sei. Eu não sei o que tem dentro. Você tem um cigarro John?
- Tenho. – Disse jogando meu pacote vazio pra ele.
Pegou o maço, sacudiu, amassou.
- Você disse que tinha cigarro!
- Eu menti. Estamos quites agora.
O tiro ecoou alto por todos os lados, pedaços da cabeça do Claudio também.
A melhor mentira, é aquela contada entre duas verdades. Sim, ela queria me matar e vender o pacote pro Medusa. Sim, ele entregou o pacote a ela e mandou que ela me entregasse.
Quanto à mentira. Aí está o erro. Foram duas. Ele queria esconder que ia me matar, mas mentiu também ao me pedir um cigarro. Ele não fumava. Só tentou me distrair pra disparar contra mim. Eu só não me distraí.
O que eu vi no carro foi meu maço vazio sendo amassado por aquele que ia me matar. Eu não escolho o que ver. Mas aprendi das piores maneiras, como interpretar o que “vejo”.
Nunca tente mentir para um vidente, num galpão, às 4:45 da madrugada, de frente para uma linda mulher de vestido vermelho, suja do seu próprio sangue e urina, morta no chão, com um pombo também morto por um tiro de pistola do lado se você não tiver certeza do que está fazendo.
O pacote estava com ela. Dentro da calcinha. Como eu sei? Da mesma forma que sabia que era vermelha. O pacote? Ah sim. Um cartão de memória de 2Gb com as conexões arrancadas. Ainda não sei o que tem nele. Sou um vidente, não o robocop.
Mas o Medusa deve saber...

***
25 de Março de 1998

-Todo dia é a mesma coisa, eu acordo, almoço, me arrumo, medito por vinte minutos, saio, vou ao psiquiatra, trabalho, volto pra casa, praguejando para o sol já nascendo, fecho as cortinas e vou dormir.
- Mas John, todo mundo tem uma rotina. É normal.
- Normal Clara? Normal pra você, que não sabe ATÉ os detalhes do que vai acontecer contigo durante o dia.
- Não consigo aceitar isso, de você “saber o futuro”. O psiquiatra não te receitou nada? Não te recomendou nenhum tratamento?
- Tratamento para o que? O quê que eu tenho? Ninguém sabe! Ele só fica lá, me ouvindo falar e me pedindo pra interpretar desenhinhos escrotos.
- Johnatam, você tem que ter paciência. Esses tratamentos são assim mesmo, demorados. Toma, pega esses analgésicos e arruma nas prateleiras certas.
- Do lado dos antibióticos?
- É.
***

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