domingo, 20 de setembro de 2009

Capítulo 3

...
Chego à frente da cafeteria “Acima da média”, mudaram o letreiro, ficou bom, mudaram a logomarca também, tudo novinho. O cheiro continua o mesmo, foi aqui que aprendi a gostar de café, aliás, foi aqui que aprendi muita coisa.
Estaciono o carro ao lado de um latão de lixo verde musgo e entro no estabelecimento. Várias mesinhas encostadas nas vidraças que dão para a rua. Duas garçonetes atendem os clientes, uniformizadas de acordo com a decoração interna, bege e marrom. Encosto no balcão.
- Um cafezinho por favor!
- É, simples!
- Não, sem açúcar mesmo.
Se o aroma não mudou, o sabor menos ainda. Ainda deve ser a tia Madalena lá dentro. Depois entro lá e dou um abraço nela.
Terminado o café, entro na porta lateral que diz “Somente para funcionários”, é um corredor, sujo como sempre, à minha direita, a porta de metal da cozinha com dois círculos de vidro no meio. Sigo em frente até uma porta no fim do corredor, abro, é uma sala onde guardam todo material de limpeza. A luz fraca me mostra esfregões, vassouras, rodos e todo tipo de detergente e desinfetante.
Abro a caixa de luz, ligo e desligo o disjuntor correto, ouço algo destravando. Afasto o tapete vinho e abro o alçapão. Desço a escada de madeira e chego na sala de segurança do Medusa. Dois homens vigiam quatro monitores com imagens da lanchonete e arredores enquanto bebem coca-cola e comem baconzitos.
- A Rita está lá dentro? – Pergunto a um deles, mesmo já sabendo a resposta.
- Está sim Senhor Johnatam. Está te aguardando.
- Obrigado.
Abro a porta.
- Oi Rita! Tudo bom?
- Tudo ótimo. Me da um abraço aqui.
- O Medusa está...
- Ta sim. Já sabe que você está aqui. Entra lá.
Abro a porta de madeira entalhada e entro na sala do Medusa. O cheiro característico da sala ainda é o mesmo. Maconha. Ouço o raggae saindo do home theater e uma banda tocando na tela de plasma de 56’’ na parede.
Atrás da mesa só vejo as costas da luxuosa cadeira preta e prata e a fumaça saindo de trás dela rumo ao teto.
- Você não enjoa dessa música não? – Pergunto tentando demonstrar bom humor.
- Você enjoa de mulher? - A resposta vem na característica voz rasgada que eu já conheço.
- É diferente. Reggae é sempre igual. Só muda o vocalista.
- Mulher também, só muda a cara, e nem por isso eu enjôo. Você enjoa?
- Ta bom. Me convenceu. Reggae é bom. - Concordo com ele pra não insistir no assunto.
A cadeira gira e posso ver o traficante a minha frente. Os mesmos dreads, as mesmas cicatrizes, a mesma pele “chocolate meio amargo”, como ele mesmo chama e um cachimbo novo, preto, cheio de desenhos brancos.
- A Rita me falou que você queria conversar comigo sobre uma “boate”. Vai abrir uma? Quer dinheiro?
Surpreendido, não contenho minha risada.
- O que? Quer falir alguma? Matar o dono? - Insiste ele se inclinando para frente e já esboçando certa curiosidade e exaltação.
- Não. Na verdade não é boate. Eu disse Gigabytes, mas ela não deve ter entendido direito pelo telefone.
- Compreendo.
- Eu vim foi por causa dessa merdinha aqui.
Medusa estende a mão e lhe entrego o pequeno chip. Ele abre a gaveta da direita, pega uma lupa e começa a examinar.
- Os contatos foram arrancados. – Diz ele como que descobrindo a América.
- Eu percebi quando peguei.
- Então, qual o problema?
- Você não sabe nada a respeito? Não sabe o que tem dentro?
- Porra! Como eu vou saber? – Diz ele sem abrir muito os lábios, por causa do cachimbo.
- A mulher que tentou me matar queria te entregar isso.
Medusa se levanta lentamente da cadeira e contorna a mesa, vindo em minha direção.
- Johnatam. Se eu mentir, você vai saber que estou mentindo, não vai?
- É provável.
- Bom saber que VOCÊ sabe disso.
- Mas então? O que tem aí dentro?
“Vejo” a Rita entrando, trazendo um celular nas mãos e entregando ao Medusa.
- Depois ele atende! – Grito, antes que ela possa encostar a mão na maçaneta.
- Digamos que boa parte do seu passado está aí dentro.
- Você pesquisou o meu passado?
- Eu não. Eu ainda não sei quem é você. Mas tenho quem pesquise pra mim.
- E você vai me mostrar. Correto?
- Cadê o vidente agora? Cadê o “Pai Diná de pistola”?- Brinca ele, caindo na gargalhada em seguida.
- Porra Medusa! Eu to falando sério! Caralho!
- Fala baixo comigo moleque. Se não eu fumo seu passado nesse cachimbo agora! Quer ver?
Prefiro esconder minha exaltação e me sento num banco. Ele contorna a mesa novamente e senta em sua cadeira imponente.
- O que você quer?
- Que você faça uns trabalhos pra mim. Só coisa boba. Você tira de letra!
- Eu já disse que não trabalharia mais pra você. Você sabe bem o porquê!

***
14 de Janeiro de 1999
Estou segurando uma pistola, e apontando pra um pedaço de carne pendurado num gancho. É um galpão, com alguns caminhões e diversos containeres. O suor escorre frio da minha testa. “Vejo”o medusa vindo até mim.
- Lembre-se do que te ensinei. Alça e mira.
Ele se levanta, mas antes que possa começar a falar, já o interrompo.
- Já sei! Já sei! Alça e massa.
Demoro cerca de cinco minutos pra atirar. Pois toda vez que prevejo que vou errar, deixo de atirar e volto a mirar novamente. Mas quando vejo a peça de carne espalhando pedaços pra todo lado eu aperto o gatilho com vontade.
- Muito bom garoto!
***


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Capítulo 2

...
Entrei no carro, abri o porta luvas, mais um maço. Pedaços de vida embalados e prontos para serem queimados. Qual será a porcentagem de vida que perco a cada maço? Cada cigarro? Cada tragada?
É o tipo de pergunta que não saberei a resposta. Pelo menos ainda existe este tipo de pergunta, e fico feliz em saber disso.
Viro a chave, as luzes do painel fraquejam durante a ignição, o carro ronca, o rádio liga, saio da frente do maldito galpão ao som de Alice in Chains, ô época boa. As pessoas costumam ser nostálgicas com o passado, saudosistas. Imagine então pra alguém que só tem pouco mais de dez anos de passado na memória.
Quase cinco da madrugada, não vou incomodar o Medusa essa hora, vai que ele tenta me matar mais uma vez. Vou pra casa, tentar dormir um pouco. Tomara que não seja outro dia da semana em que eu fique de olhos abertos, olhando pro teto, “vendo” tudo aquilo com que vou sonhar. É algo péssimo pro meu humor.
Abro a porta da garagem pelo controle, deixo o carro, entro pela cozinha, bebo um copo d’água vagarosamente enquanto observo o stick de memória com minúcia.
Por que a garota foi tão burra? Ela sabia da minha vidência. Sabia tudo. Era uma mulher bonita, deixou uma filha pequena órfã. O marido morreu ano passado num acidente de carro e os avós da menina já eram falecidos. Merda! Eu não quero mais saber. Essas imagens vão chegando à minha mente, parece uma daquelas montagens de cinema.
Ducha quente. Só assim pra lavar a alma. Deixo a água bater forte nas costas, massageando suavemente as tensões da noite. Visto o roupão, deito na cama. Sol já despontando. Minha rotina não mudou muito desde que me lembro, doze anos atrás quando comecei a trabalhar na farmácia.
Fecho a cortina, ligo a TV, mais um filme que já sei o final, mudo o canal, mais outro. Desligo. Teto, cinza, uma mulher bonita, ofereço um cigarro, ela aceita, nos beijamos, ela tenta me acertar com uma faca.
Merda! Estou prevendo meus sonhos de novo. Mas que inferno! Abro a gaveta, um comprimido. Agora o sono não deve tardar.
Seguro a mão dela, a faca cai no chão, empurro pra trás, pego a faca...


***
17 de Junho de 1996
Estou ouvindo um bip intermitente, semelhante àqueles dos monitores cardíacos, dos hospitais. Não consigo abrir meus olhos, não sinto meus dedos nem consigo falar.
Os bips começam a aumentar de velocidade e isso me deixa nervoso. Alguém chega perto de mim.
- Doutor, acho que ele está acordando.
- Isso é impossível! Ele perdeu muita massa encefálica. Pensei que a essa altura já teria morte cerebral.
Alguém abre meus olhos e ascende um holofote na minha cara. Duas vezes.
- Se ele acordar, será que vai ficar com seqüelas?
- Com certeza vai! Talvez nunca mais ele tenha uma vida normal!

Na mosca!
***

É engraçado todos os dias eu acordar uns quinze segundos antes de o relógio despertar, por que ouço ainda no meu sonho ele despertando. Mais engraçado ainda é eu abrir os olhos, e olhando para o teto, sempre aguardar o barulho enjoado que acabei de ouvir se repetindo, só pra me convencer de que eu não errei na previsão. As pessoas reclamam do barulho do despertador. Eu ouço essa porra de barulho duas vezes, toda tarde.
Está escuro. O quarto alterna entre uma penumbra azulada e a escuridão total. Culpa da hora errada nos LEDs na telinha do DVD. 12:00 piscando compassadamente. Faltou luz na semana passada e até agora eu não acertei a hora. Mas também. Pra quê? Mais tarde vai faltar luz de novo. Na hora do jogo.
Levanto. Abro a persiana. O sol vem direto na minha direção produzindo uma versão minha mais esguia sobre a cama na forma de uma silhueta escura. Meu vizinho esta saindo com o carro da garagem. “Vejo” ele sorrindo e me entregando uma caixa de sapatos. É futuro distante. Nunca tento decifrar futuro distante. Não dá. Pra entender uma visão eu preciso estar a par de tudo que aconteceu naquele momento. Quanto mais futura é a visão, mais difícil é de interpretá-la. Ali no caso pode ser meu aniversário, algo emprestado sendo devolvido, um hamster, ou uma bomba. Só saberei perto do momento.
Chuveiro, toalha, cueca, TV, torradas, dois ovos, café forte sem açúcar, cigarro, calça jeans preta, blusa preta, jaqueta preta, sapato preto. A cueca é branca. Pistola, outra pistola, faca, outro cigarro, abre a porta, fecha a porta. Abre de novo a porta, esqueci o celular, fecha a porta, escada, garagem, carro.
São 15h. abro o portão da garagem discando pro Medusa.
- Alô! Oi Rita, é o John. Quero falar com meu padrinho.
A Rita é a mulher que o Medusa ta pegando agora.
- Ta, então só diz a ele que eu tenho dois gigabytes de informação que ele quer.
- Não Rita. É gi-ga-bai-te.
- Isso. To chegando aí em vinte minutos.
Uma tarde de sol. Odeio não poder usar jaqueta. Pra isso ligo o ar condicionado no máximo. Ligo o som num volume confortável, pelo menos pra mim e sigo pra casa do meu padrinho.
O Medusa é um cara bem peculiar. Ninguém sabe ao certo a origem do apelido. Alguns dizem que é por causa dos dreads. Outros dizem que é culpa da cara feia dele mesmo. Ele tem o rosto deformado, cheio de cicatrizes, com vários dentes de ouro. Mas eu já ouvi uma vez uma história de que as cicatrizes surgiram junto com o apelido, na adolescência. Quando o acharam perto das docas, todo ferrado, espancado, com a cara sangrando e com poucos dentes sobrando na boca. Perguntaram quantos tinham batido nele e ele teria respondido “medusa”. Depois entenderam que a fala estava prejudicada por culpa dos ferimentos, e que o que ele tentou dizer realmente foi "meia dúzia".
Nunca perguntei a ele, as pessoas só especulam. Mas, pra que saber o passado dos outros? Não sei nem o meu.

***
13 de Novembro de 1998
Era uma sexta-feira e estava sozinho e entediado no turno da noite da farmácia. Clara estava doente e o Marcos estava de licença cuidando da esposa e da filhinha recém nascida. Eu tentava não dormir no balcão enquanto assistia um filme de vampiro na TV. “Vi” um homem de jaqueta jeans entrando na farmácia, ele me cumprimentava, falava sobre como as noites de sexta-feira 13 eram esquisitas, depois pedia uma série de remédios, eu me virava, e começava a pegar o pedido. Na TV o vampiro tentava pegar uma donzela e dizia “agora serás minha! Minha amada. Para sempre minha!”, em seguida o homem me ameaçava com uma pistola.
Minha visão foi interrompida quando um homem de jaqueta jeans entrou na farmácia.
- Sexta-feira 13 hein? Cuidado com os gatos pretos!
- É... eles dão azar, né? – Respondi muito receoso.
- Dão sim, você não pode deixar um deles cruzar o seu caminho.
- Pode deixar, se eu vir um, eu espanto.
- Isso mesmo! Garoto, me vê esses remédios aqui do papel, por favor.
Virei-me, já começando a tremer de medo. Comecei a pegar os remédios e me abaixei pra pegar um que ficava na primeira prateleira. Aproveitei pra pegar um vergalhão que estava ali no chão e era usado pra fechar as portas da farmácia.
Na TV “agora serás minha”
Girei com toda força acertando o vergalhão na cabeça do homem que já puxava a pistola da jaqueta. Ele caiu no chão e o sangue começou a escorrer pelo chão branco da farmácia.
***

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Capítulo 1

...
Eu estava de costas pra ela, entrando no galpão, 4:37 da madrugada. Sabia que o vestido dela era vermelho, sabia até que a calcinha era vermelha também. Peguei meu isqueiro no bolso, acendi o último cigarro do maço, já sabia disso antes de estacionar o carro, mas não peguei o outro maço no porta-luvas. Não peguei, pois também já sabia que seria esse maço vazio que iria me ajudar.
O chão brilhava molhado pelas goteiras no teto do galpão, formando um estranho e áspero espelho que me refletia uma versão abstrata e peculiar da realidade. Me entreti por alguns segundos recordando as imagens que vi antes de sair do carro. Eram parecidas com as imagens que eu via agora, algumas nuances avermelhadas em meio ao caos branco, cinza e preto. Pronto, era essa minha deixa. É agora que ela vai falar.
- Me procurando babaca? – Disse ela engatilhando a pistola.
Não olhei pra trás, não era agora que ela atirava. Não ia demorar, mas ainda não era agora. Faltava a música.
Ouvi um ruído no fundo do galpão. Algo metálico se chocando contra o chão, ecoando ao redor. Assustou os pássaros que revoaram mudando de lugar bem pra cima das nossas cabeças. Eu sabia que eles iam mudar de lugar novamente, sabia até que um ia cair no chão, bem do meu lado.
Katarina se surpreendeu com o ruído.
- Não, eu não trouxe ninguém comigo. – Eu disse a ela enquanto me virava e passava a enxergar seus olhos verdes cerca 70 cm atrás da pistola.
As pessoas sempre me demonstram espanto quando percebem que prevejo as coisas. As mulheres principalmente. Arregalam os olhos e abrem um pouco mais a boca vagarosamente. Tive que rir. Pra essa não precisava ser vidente pra saber.

- Que porra de barulho foi esse então? – Ela se recuperou rápido. OU... se irritou com meu sorriso. Prontamente o escondi fazendo um bico que infelizmente se tornou debochado. Nunca deboche de uma mulher com uma pistola apontada pra sua cabeça.
- Catraca. Eu não quero ter que te machucar. Só quero o pacote e você sabe disso.
Catraca era o apelido de infância da Katarina, quando os meninos queriam “zoá-la” durante as brincadeiras. Ela nunca gostou muito disso. Nunca fui amigo de infância dela. Só sei que era assim que acontecia. Como? Sei lá. Apenas sei.
- Não acredito que você seja um vidente. Não tenho medo de você.
- Moça. Se eu disser que você vai se mijar de medo, você vai se mijar de medo disso ser verdade. – Eu disse isso enquanto ouvia um carro passando na rua atrás do galpão. Junto do som do motor, havia... a música. Nunca faça uma mulher se mijar de medo, na sua frente com uma pistola apontada para sua cabeça, num galpão às 4:40 da madrugada.
Segurei as mãos dela e levantei, apontando a arma para cima. Ela atirou. O som ecoou alto por todos os lados. Os pombos revoaram. O cheiro de amônia chegou a minhas narinas. Apertei forte a mão dela e fiz a pistola cair, chutando-a para longe em seguida.
- Cadê o pacote? – Eu disse isso com aquela calma nojenta que só quem acabou de subjugar alguém pode transpassar.
- O Cláudio não me entregou. Disse pra vir aqui matar você.
Nunca me faça ver uma mulher linda, usando um vestido vermelho, desabafar aos prantos enquanto se ajoelha no próprio mijo ao lado de um pombo que acabou de matar com um tiro de pistola às 4:41 da madrugada.
- Para com isso. Levanta. – Disse enquanto a ajudava a se levantar.
- Volta pro seu carro e mete o pé daqui.
Enquanto ela ia andando, Claudio apareceu na porta do galpão. Deu três tiros nela e veio andando em minha direção. Meu cigarro estava acabando.
- Essa piranha é uma mentirosa. O pacote está com ela sim. Pode procurar. – Ele falava e vinha andando na minha direção. O cano da arma ainda fumegava.
- Ela queria te matar e depois entregar o pacote pro Medusa.
- O que o Medusa ia querer com isso?- Disse dando a última tragada no meu último cigarro e jogando a guimba ainda acesa no chão molhado logo em seguida.
- Não sei. Eu não sei o que tem dentro. Você tem um cigarro John?
- Tenho. – Disse jogando meu pacote vazio pra ele.
Pegou o maço, sacudiu, amassou.
- Você disse que tinha cigarro!
- Eu menti. Estamos quites agora.
O tiro ecoou alto por todos os lados, pedaços da cabeça do Claudio também.
A melhor mentira, é aquela contada entre duas verdades. Sim, ela queria me matar e vender o pacote pro Medusa. Sim, ele entregou o pacote a ela e mandou que ela me entregasse.
Quanto à mentira. Aí está o erro. Foram duas. Ele queria esconder que ia me matar, mas mentiu também ao me pedir um cigarro. Ele não fumava. Só tentou me distrair pra disparar contra mim. Eu só não me distraí.
O que eu vi no carro foi meu maço vazio sendo amassado por aquele que ia me matar. Eu não escolho o que ver. Mas aprendi das piores maneiras, como interpretar o que “vejo”.
Nunca tente mentir para um vidente, num galpão, às 4:45 da madrugada, de frente para uma linda mulher de vestido vermelho, suja do seu próprio sangue e urina, morta no chão, com um pombo também morto por um tiro de pistola do lado se você não tiver certeza do que está fazendo.
O pacote estava com ela. Dentro da calcinha. Como eu sei? Da mesma forma que sabia que era vermelha. O pacote? Ah sim. Um cartão de memória de 2Gb com as conexões arrancadas. Ainda não sei o que tem nele. Sou um vidente, não o robocop.
Mas o Medusa deve saber...

***
25 de Março de 1998

-Todo dia é a mesma coisa, eu acordo, almoço, me arrumo, medito por vinte minutos, saio, vou ao psiquiatra, trabalho, volto pra casa, praguejando para o sol já nascendo, fecho as cortinas e vou dormir.
- Mas John, todo mundo tem uma rotina. É normal.
- Normal Clara? Normal pra você, que não sabe ATÉ os detalhes do que vai acontecer contigo durante o dia.
- Não consigo aceitar isso, de você “saber o futuro”. O psiquiatra não te receitou nada? Não te recomendou nenhum tratamento?
- Tratamento para o que? O quê que eu tenho? Ninguém sabe! Ele só fica lá, me ouvindo falar e me pedindo pra interpretar desenhinhos escrotos.
- Johnatam, você tem que ter paciência. Esses tratamentos são assim mesmo, demorados. Toma, pega esses analgésicos e arruma nas prateleiras certas.
- Do lado dos antibióticos?
- É.
***