...
Entrei no carro, abri o porta luvas, mais um maço. Pedaços de vida embalados e prontos para serem queimados. Qual será a porcentagem de vida que perco a cada maço? Cada cigarro? Cada tragada?
É o tipo de pergunta que não saberei a resposta. Pelo menos ainda existe este tipo de pergunta, e fico feliz em saber disso.
Viro a chave, as luzes do painel fraquejam durante a ignição, o carro ronca, o rádio liga, saio da frente do maldito galpão ao som de Alice in Chains, ô época boa. As pessoas costumam ser nostálgicas com o passado, saudosistas. Imagine então pra alguém que só tem pouco mais de dez anos de passado na memória.
Quase cinco da madrugada, não vou incomodar o Medusa essa hora, vai que ele tenta me matar mais uma vez. Vou pra casa, tentar dormir um pouco. Tomara que não seja outro dia da semana em que eu fique de olhos abertos, olhando pro teto, “vendo” tudo aquilo com que vou sonhar. É algo péssimo pro meu humor.
Abro a porta da garagem pelo controle, deixo o carro, entro pela cozinha, bebo um copo d’água vagarosamente enquanto observo o stick de memória com minúcia.
Por que a garota foi tão burra? Ela sabia da minha vidência. Sabia tudo. Era uma mulher bonita, deixou uma filha pequena órfã. O marido morreu ano passado num acidente de carro e os avós da menina já eram falecidos. Merda! Eu não quero mais saber. Essas imagens vão chegando à minha mente, parece uma daquelas montagens de cinema.
Ducha quente. Só assim pra lavar a alma. Deixo a água bater forte nas costas, massageando suavemente as tensões da noite. Visto o roupão, deito na cama. Sol já despontando. Minha rotina não mudou muito desde que me lembro, doze anos atrás quando comecei a trabalhar na farmácia.
Fecho a cortina, ligo a TV, mais um filme que já sei o final, mudo o canal, mais outro. Desligo. Teto, cinza, uma mulher bonita, ofereço um cigarro, ela aceita, nos beijamos, ela tenta me acertar com uma faca.
Merda! Estou prevendo meus sonhos de novo. Mas que inferno! Abro a gaveta, um comprimido. Agora o sono não deve tardar.
Seguro a mão dela, a faca cai no chão, empurro pra trás, pego a faca...
***
17 de Junho de 1996
Estou ouvindo um bip intermitente, semelhante àqueles dos monitores cardíacos, dos hospitais. Não consigo abrir meus olhos, não sinto meus dedos nem consigo falar.
Os bips começam a aumentar de velocidade e isso me deixa nervoso. Alguém chega perto de mim.
- Doutor, acho que ele está acordando.
- Isso é impossível! Ele perdeu muita massa encefálica. Pensei que a essa altura já teria morte cerebral.
Alguém abre meus olhos e ascende um holofote na minha cara. Duas vezes.
- Se ele acordar, será que vai ficar com seqüelas?
- Com certeza vai! Talvez nunca mais ele tenha uma vida normal!
Na mosca!
***
É engraçado todos os dias eu acordar uns quinze segundos antes de o relógio despertar, por que ouço ainda no meu sonho ele despertando. Mais engraçado ainda é eu abrir os olhos, e olhando para o teto, sempre aguardar o barulho enjoado que acabei de ouvir se repetindo, só pra me convencer de que eu não errei na previsão. As pessoas reclamam do barulho do despertador. Eu ouço essa porra de barulho duas vezes, toda tarde.
Está escuro. O quarto alterna entre uma penumbra azulada e a escuridão total. Culpa da hora errada nos LEDs na telinha do DVD. 12:00 piscando compassadamente. Faltou luz na semana passada e até agora eu não acertei a hora. Mas também. Pra quê? Mais tarde vai faltar luz de novo. Na hora do jogo.
Levanto. Abro a persiana. O sol vem direto na minha direção produzindo uma versão minha mais esguia sobre a cama na forma de uma silhueta escura. Meu vizinho esta saindo com o carro da garagem. “Vejo” ele sorrindo e me entregando uma caixa de sapatos. É futuro distante. Nunca tento decifrar futuro distante. Não dá. Pra entender uma visão eu preciso estar a par de tudo que aconteceu naquele momento. Quanto mais futura é a visão, mais difícil é de interpretá-la. Ali no caso pode ser meu aniversário, algo emprestado sendo devolvido, um hamster, ou uma bomba. Só saberei perto do momento.
Chuveiro, toalha, cueca, TV, torradas, dois ovos, café forte sem açúcar, cigarro, calça jeans preta, blusa preta, jaqueta preta, sapato preto. A cueca é branca. Pistola, outra pistola, faca, outro cigarro, abre a porta, fecha a porta. Abre de novo a porta, esqueci o celular, fecha a porta, escada, garagem, carro.
São 15h. abro o portão da garagem discando pro Medusa.
- Alô! Oi Rita, é o John. Quero falar com meu padrinho.
A Rita é a mulher que o Medusa ta pegando agora.
- Ta, então só diz a ele que eu tenho dois gigabytes de informação que ele quer.
- Não Rita. É gi-ga-bai-te.
- Isso. To chegando aí em vinte minutos.
Uma tarde de sol. Odeio não poder usar jaqueta. Pra isso ligo o ar condicionado no máximo. Ligo o som num volume confortável, pelo menos pra mim e sigo pra casa do meu padrinho.
O Medusa é um cara bem peculiar. Ninguém sabe ao certo a origem do apelido. Alguns dizem que é por causa dos dreads. Outros dizem que é culpa da cara feia dele mesmo. Ele tem o rosto deformado, cheio de cicatrizes, com vários dentes de ouro. Mas eu já ouvi uma vez uma história de que as cicatrizes surgiram junto com o apelido, na adolescência. Quando o acharam perto das docas, todo ferrado, espancado, com a cara sangrando e com poucos dentes sobrando na boca. Perguntaram quantos tinham batido nele e ele teria respondido “medusa”. Depois entenderam que a fala estava prejudicada por culpa dos ferimentos, e que o que ele tentou dizer realmente foi "meia dúzia".
Nunca perguntei a ele, as pessoas só especulam. Mas, pra que saber o passado dos outros? Não sei nem o meu.
***
13 de Novembro de 1998
Era uma sexta-feira e estava sozinho e entediado no turno da noite da farmácia. Clara estava doente e o Marcos estava de licença cuidando da esposa e da filhinha recém nascida. Eu tentava não dormir no balcão enquanto assistia um filme de vampiro na TV. “Vi” um homem de jaqueta jeans entrando na farmácia, ele me cumprimentava, falava sobre como as noites de sexta-feira 13 eram esquisitas, depois pedia uma série de remédios, eu me virava, e começava a pegar o pedido. Na TV o vampiro tentava pegar uma donzela e dizia “agora serás minha! Minha amada. Para sempre minha!”, em seguida o homem me ameaçava com uma pistola.
Minha visão foi interrompida quando um homem de jaqueta jeans entrou na farmácia.
- Sexta-feira 13 hein? Cuidado com os gatos pretos!
- É... eles dão azar, né? – Respondi muito receoso.
- Dão sim, você não pode deixar um deles cruzar o seu caminho.
- Pode deixar, se eu vir um, eu espanto.
- Isso mesmo! Garoto, me vê esses remédios aqui do papel, por favor.
Virei-me, já começando a tremer de medo. Comecei a pegar os remédios e me abaixei pra pegar um que ficava na primeira prateleira. Aproveitei pra pegar um vergalhão que estava ali no chão e era usado pra fechar as portas da farmácia.
Na TV “agora serás minha”
Girei com toda força acertando o vergalhão na cabeça do homem que já puxava a pistola da jaqueta. Ele caiu no chão e o sangue começou a escorrer pelo chão branco da farmácia.
***

A leitora fiel esteve aki!
ResponderExcluir